14 janeiro 2003

O que os outros escrevem: O Amor dos Amigos





Ouvir um amigo dizer o nosso nome parece banal
mas faz toda a diferença.
A proximidade, a aceitação
e a disponibilidade que revela no momento
em que se faz presente resumem o essencial.
Diz o nome, dizendo que está ali por nós e para nós.


O Amor dos Amigos

Seria incapaz de viver sem os meus amigos.
Sem a consciência de que existem e são como são.
Em tempos mais adversos dou comigo
a enunciar mentalmente os seus nomes
para me assegurar de que estão presentes
e muito próximos.
Falo da proximidade do coração, naturalmente.

Ninguém tem muitos amigos íntimos.
Pessoas com quem está com inteira verdade
e toda a devoção.
Não sou excepção e, por isso mesmo,
dou ainda mais valor aqueles que verdadeiramente amo.

Sei hoje quem são os amigos que me acompanham
até ao fim e vivo feliz com a ideia
de que estaremos sempre presentes
e disponíveis uns para os outros.
Gosto de estar, com eles,
divertem‑me e divertimo‑nos juntos mas,
acima de tudo, dão sentido à minha vida.
Desdobram, alisam e ampliam a minha existência.
Aos quarenta anos (tenho 41)
já é possível perceber quem está connosco
e permanece firme, sempre,
e quem está apenas ocasionalmente.
Uns e outros são pessoas que ajudam a viver mas,
confesso, mais uns do que os outros.

Uns são aqueles que falam verdade,
que não se protegem nem escudam,
perguntam aquilo que temos necessidade
que saibam e respondem aquilo que precisamos de ouvir.
Põem o dedo nas feridas mas não fazem doer.
Curam.
São tão amigos e é tão verdadeiro o seu amor que,
mesmo distantes ou ausentes,
estão sempre connosco.

Os outros são aqueles que estão quando podem,
quando lhes damos jeito ou quando acham graça.
São igualmente divertidos e até parecem amigos mas não são.
São conhecidos, amigos dos amigos
ou simplesmente pessoas queridas.
Mas não são amigos.
Não se podem ter com eles todas as conversas
nem se lhes pode falar sempre com o coração nas mãos.

Ter o coração nas mãos, aliás,
é uma imagem muito bonita e eloquente.
Como se o pudéssemos oferecer,
como se disséssemos ao outro que lhe entregamos a nossa vida.

Uns e outros conhecem‑se mais pelo silêncio
do que pelas palavras.
Só é possível partilhar o silêncio
com um amigo verdadeiro.

Com os outros é impossível.
Tudo se torna pesado
e aquilo que não conseguimos dizer transforma‑se em equívoco.
Com os amigos não,
o silêncio é bom e traz muita paz.
Não tropeçamos nas palavras,
não nos embaraçam os gestos e o olhar nunca se perde.
Vai direito ao essencial.
Trespassa-nos porque nos conhece,
no melhor e no pior,
e sabe sempre como somos e sentimos.

Para além do silêncio das palavras e dos gestos
há outras maneiras de saber quem são os amigos verdadeiros.
Conhecem‑se pela intimidade mas, também, pela liberdade.
Por seguirem o seu caminho e nos deixarem seguir o nosso.
Estão por nós mas não vivem a vida em vez de nós.
Seguram‑nos mas não nos prendem.
Sabem que precisam de estar livres
e dão‑nos essa liberdade também.

Sei, porque sinto, que a amizade é como o amor.
Parece diferente mas é quase igual.
A vantagem, na verdadeira amizade,
é que existe menos posse, menos ciúme e mais liberdade.
Por isso gosto tanto do amor dos meus amigos.

Laurinda Alves
Revista XIS Ideias para Mudar
Nº187 pág. 1
14 Janeiro 2003
Suplemento do Jornal
Público