24 junho 2005

Quando os livros podem arder


Quando os livros podem arder

Deita fogo à primeira página, depois à segunda.
Cada uma se transforma numa borboleta negra.










Livro escrito em 1953, há mais de 50 anos, Fahrenheit 451 é uma obra surpreendente, pela semelhança cada vez mais próxima à realidade de hoje. Pouco tempo depois da II Guerra Mundial, o autor faz previsões de um futuro apocalíptico para o Livro e, por conseguinte, para a Humanidade.

Pergunto-me se em muitas famílias por esse mundo fora não sucede o que é descrito nestas linhas. Livros que ardem, memórias que desaparecem. Silencia-se a filosofia, a discussão pública, o raciocínio, a dúvida. Nesta história de livros em cinzas, tudo se faz para promover a ditadura de uma civilização do futuro cada vez mais tecnológica, mas cada vez mais ignorante.

Nesta civilização quem tiver a posse de livros é preso. Livros e lar são exterminados em incêndios ateados pelos próprios bombeiros, que passaram a ser ateadores de fogos "purificadores de mentes".

É a limpeza do pensamento através de um livrocídio.

O livro agarrou-me apenas na 11ª página:

As folhas do Outono voavam rente ao chão iluminado pelo luar e a rapariga que caminhava na sua direcção, [...] parecia deixar-se levar pelo movimento do vento e das folhas.


Já na página 15 voltei a interessar-me pela escrita:

— E se olhar bem... [...] verá um homem na Lua.
Há já muito tempo que ele não olhava para Lua.


E fiquei de vez agarrada às palavras na página 33:

Não vejo o que há de social em pôr uma quantidade de pessoas juntas para as impedir de falar. Não é da mesma opinião? Uma hora de aula televisada, uma hora de basquetebol, de basebol ou de corridas a pé, uma outra hora de transcrição de história ou de pintura e mais uma vez desportos mas, sabe, nunca ninguém faz perguntas ou, pelo menos, a maior parte de nós não as fazem; contentam-se em meter as respostas na cabeça, bing, bing, bing, e ficam sentados quatro horas seguidas perante filmes educativos. Isso nada tem de social, para mim.

[...]

Eles embrutecem-nos de tal forma que, ao fim do dia, apenas nos sentimos capazes de ir para a cama ou para um parque de atracções empurrar pessoas, partir vidros na barraca do "Quebra Vidros", virar automóveis no "Demolicar" com a grande bala de aço ou ainda de sair num carro e seguir em grande velocidade pelas ruas, rasando os candeeiros, tentando matar galinhas. No fundo devo ser aquilo que me acusam de ser. Não tenho um único amigo. Isso chega, parece para provar que sou anormal. Mas todos quantos conheço passam o seu tempo a gritar, a saltar como selvagens ou a baterem-se. Notou como toda a gente se agride, hoje?


Página 53:

— Queimámos cerca de mil livros... queimámos uma mulher.

[...]

— Queimámos livros de Dante, de Swift, de Marco Aurélio.


Página 64:

Encham os homens de informações inofensivas, incombustíveis, que eles se sintam a rebentar de «factos», informados acerca de tudo. Em seguida, eles imaginarão que pensam e terão sentimentos do movimento, enquanto realmente apenas se arrastam. Serão felizes, porque os conhecimentos deste género são imutáveis. Não os levem para terrenos escorregadios como a filosofia ou a sociologia, em que tenham de confrontar a sua experiência. É a fonte de todos os tormentos. Todo o homem capaz de desmontar um ecrã mural de televisão e de o tornar a montar, e hoje quase todos eles são capazes, é bem mais feliz que aquele que tenta medir, experimentar, pôr em equação o universo, o que não pode ser feito e da sua solidão.


Página 67:

[...] Gostava de esclarecer esta estranha sensação. isto começa a contender comigo. Não sei o que é. Sinto-me infeliz como as pedras... [...] Tenho a impressão de ter posto de parte uma quantidade de coisas, mas o quê, exactamente, não sei... Por um pouco que me punha a ler livros...

A que distância estamos da ficção de Ray Bradbury?
Se continuamos assim, aproximamo-nos perigosamente do abismo...

Sinto-me a asfixiar...


Junho 2005

P.S. Querem saber como os livros nos ajudam e nos podem ajudar?
Para que servem os livros?
Explorem o livro «Fahrenheit 451» de Ray Bradbury e descubram. Boas Leituras!


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